Textos Críticos

Gersony Silva - Tensão no [IN]visível

Acompanhar a pesquisa artística de Gersony Silva possibilita-me um posicionamento crítico perante suas gradativas e decorrentes construções visuais. Na seleção das obras para esta exposição fomos cuidadosos para que elas agissem como manifestos visuais que categorizassem uma proposta assintomática e mutável, no que a conceitos e convicções refere-se.
Assim, na exposição na Pinacoteca Benedicto Calixto Santos - São Paulo, a artista estabelece em seus manifestos visuais uma paridade tensionada em suportes que geram fluídos conceituais recorrentes de uma literalidade sugerida para apenas a materialidade na construção das obras de arte. Ao mesmo tempo que, partindo da sólida pesquisa artística que se fomenta nos percursos percorridos pela artista, as obras de arte aqui apresentadas magnetizam percursos que sugerem e deambulam desde o visível pelo interior projetado de corpo(s), que palpitam sensorialmente em mensagens de clamor e movimentos, até uma concretização e uma combinação reflexiva de conceito e de espaço.
Nos postulados de representação que Silva constrói e projeta parece-me que há uma abrangência mimética particular reforçando postulados éticos em primeiro lugar para articular aqueles estéticos num plano intrínseco aos primeiros, colocando em xeque a lógica da representação.
Nas obras de arte da série Pigmento, suor e nada mais, 2018/2019, a artista sugere-nos movimentos com fluidez cromática e/ou espacial onde a cor é a própria cor e onde aparecem simuladamente arquétipos da cultura humana, que desvanecem aqui qualquer nomenclatura simbólica para se estruturar como modalidades artísticas contemporâneas: da escultura à performance, da fotografia à instalação, de desenhos à pintura, como sólidos manifestos visuais. Desta forma, Silva posiciona-se na lógica que aponta Didi- Huberman que [. . . ] Tomar posição é desejar, ´é exigir algo, é situar-se no presente e visar um futuro. Contudo, tudo isso só existe sobre o fundo de uma temporalidade que nos precede, que nos engloba, chamando por nossa memória até em nossas tentativas de esquecimento, de ruptura, de novidade absoluta. Para saber ´e preciso saber o que se quer; porém, ´e preciso, também, saber onde se situa nosso não saber, nossos medos latentes, nossos desejos inconscientes. [...]
Já nas obras de arte da série SOBREvoos IX a XXIV, 2016/2017, a vulnerabilidade cromática/estrutural/sensorial regulamenta as estratégias do uso da representação e da descrição/exposição das asas como formas híbridas, estratégias tidas como postulados de uma convenção cultural e não na simples associação entre o objeto e as imagens.
Em Mãos atadas em águas correntes, 2019, assim como em Ruídos do silêncio, 2018, a artista revela como em seu processo de criação questiona a formalidade nas estruturas narrativas. Isto ocorre ao sufocar as interpretações explícitas, ao intensificar com eminência inúmeras e peculiares camadas processuais de construção de narrativas, e ao articular à instabilidade e apreensão sensorial destas camadas, no que Rosalind E. Krauss define como o drama do movimento. Um drama material, presencial e metafórico como na instauração (performance e instalação) Desculpe... minha mão está suando, 2015/2019, onde há a conjunção dos processos fisionômicos particulares com a mutabilidade material do conjunto de elementos que compõem a obra de arte: a corrosão do metal pela reação com o suor da artista, por exemplo; assim como a incessante e permanente emulsão de manantes sensoriais que salientam que a transcendência de uma obra de arte radica, sobretudo, em seu poder transgressivo.

Andrés I. M. Hernández
Curador, professor, produtor e doutor em Artes Visuais São Paulo, primavera de 2019