Textos Críticos

Corpo movente

Nosso corpo é uma complexa combinação de diferentes órgãos, tecidos e sistemas operando todos em simultânea cooperação para garantir a continuidade da vida do organismo. Do ponto de vista biológico, esta explicação talvez seja o bastante para responder a uma pergunta que se contente com uma definição padrão. Mas, se abordamos a questão a partir de uma perspectiva poética ou afetiva, muitos outros elementos são colocados sob nossa lupa. Vamos precisar falar de coisas que não estão à flor da pele, de significados que são únicos para cada pessoa, de sentidos que emergem e desaparecem de acordo com condições nem sempre óbvias e muito menos perenes.
O corpo colocado no campo da arte se multiplica em agente, veículo, motivo, e tantas outras possibilidades quantas forem cogitadas pelo espírito. No trabalho de Gersony Silva, o corpo é o ponto de partida da experimentação artística. A começar pelos motivos que disparam suas criações – a artista observa o modo como o corpo social habita o espaço, em que circunstâncias consegue se adequar, se é tolhido ou mesmo apagado da existência na esfera pública. Gersony também se ocupa do corpo simbólico, de como este se transforma em abrigo, em alvo, em mercadoria ou objeto de fetiche. Num nível mais sutil, o corpo é investigado através de processos indispensáveis à vida, como a corrente sanguínea ou a transpiração.
Este corpo que nos identifica fisicamente como indivíduos é um corpo movente. Mesmo quando em repouso, por dentro é território de um eterno fluxo de água, de sangue, nutrientes e comandos sendo continuamente transportados através de sua geografia intrincada. Por fora, seu movimento também tem caráter simbólico e de sonho, também fala de aspirações que não se localizam nem dentro e nem fora de si, mas em algum lugar intangível, ainda que decididamente presente.
Um corpo que vai sendo formado por cada novo projeto – eis uma boa maneira de se aproximar da obra de Gersony Silva. Em cada trabalho uma parte é dissecada, ou posta à prova, ou fragmentada e ressignificada. Subjacente a tudo, em estado de latência ou escancarado, lá está o movimento. Pés se transmutam em asas, ou melhor, em “péssaros”, e quem pode negar que seu caminhar seja capaz de nos fazer alçar voos? Da mesma forma como o sangue que corre em nossas veias executa uma dança cuja única testemunha é a imaginação da artista. Numa escala inconcebível a olho nu, existe também um movimento contínuo entre os átomos que formam tudo o que existe no universo – dos mares às pedras, dos grãos de areia aos fios de cabelo. Explica a ciência que, por conta deste trânsito, quase tudo que entendemos como sólido é, antes de tudo, uma coleção de grandes vazios; mas se estes vazios são passagens, eles levam, potencialmente, a outras paragens. Assim como uma fenda pode ocultar um abismo, pode também significar um recomeço, um “parto”. Nada que concebemos é definitivo, e tudo o que parece estar em repouso está, na verdade, movendo-se neste balé incansável das ideias, dos sonhos, e mesmo da estrutura da matéria. De certa forma, todas as coisas acabam por obedecer à mesma lógica irrequieta.
Metacorpo parece um termo adequado para o conjunto de obras reunidas nesta individual, algumas produzidas especialmente para a ocasião. Existe uma linha mestra que as conecta, estabelecendo relações em torno deste metacorpo. Mas esta comunicação não se dá necessariamente na mesma língua; se nos deixarmos envolver por cada trabalho, podemos sentir que alguns remetem a um corpo físico como organismo pulsante, outros a um corpo imaginado (que não deixa escapar sua busca pelo sagrado), e outros, ainda, a um corpo que segue nutrindo sua interrelação com o corpo-terra, de natureza mais afeita ao feminino. Recomenda-se respirar conscientemente e deixar que seu próprio corpo paute o ritmo da experiência da fruição.
Sylvia Werneck
Agosto de 2019