Textos Críticos

LUCIANO MIGLIACCIO

Nas telas de Gersony as superfícies se movimentam, se curvam, formam relevos macios ou se abrem em cavidades insondáveis, atraentes e misteriosas, sedutoras. Como pétalas de grandes orquídeas as curvas coloridas avançam e recuam numa ação constante de atração e oferecimento, repulsão e fulga, que as tornam ainda mais intrigantes. As cores quentes são dadas por toques que parecem carícias, com um sincero prazer pelas nuanças e pelas variações da luz natural, semelhando às peles aveludadas das flores. Não vemos uma cor abstrata e intelectual, mas a matéria sensual e rica da pintura barroca. Através do seu apurado instinto de colorista, Gersony sabe expressar a própria interioridade com grande sinceridade. Ela faz com que o ofício do pincel seja realmente algo valioso, um meio para contemplar destacadamente nossas paixões, nossos desejos no meio do tumulto que nos envolve.
A obra é apenas um vestígio deste exercício sincero e profundo, semelhante a um trabalho de um artesão, que através do domínio da sua técnica, realiza um ideal num objeto construído. O que importa é a capacidade de comunicar essas sensações pelos singelos instrumentos da pintura. Ensinar a ver as formas das coisas como sinais da nossa própria vida interior, já que a vida é feita de coisas, de objetos. Um grande poeta latim escreveu “Sunt lacrimae rerum”, “As lágrimas das coisas existem”. Na arte as formas existem como expressão da vida: as lágrimas, a alegria, o prazer dos sentidos, a angústia do tempo. A pintura de Gersony nos fala disso tudo. Se o olhar sincero da artista consegue perceber e transmitir essa idéia, então valem a pena as longas horas passadas no ateliê, na frente do vazio da tela; vale ainda a pena o humilde ofício da cor. Para revelar as lágrimas e a vida secreta das coisas, para conter nossas lágrimas.
LUCIANO MIGLIACCIO
Crítico de Arte - Prof. e Dr. em História da Arte - Brasil / Itália