Textos da Artista

A Arte e a Retomada da Dignidade Social

Atualmente é um consenso dizer que a educação é a solução para a maioria dos problemas sociais que vivenciamos. Do mesmo modo, a crítica às ações públicas na educação. No entanto a responsabilidade pelas ações concretas em prol da educação e da dignidade humana é de todos. Sempre acreditei, pela minha formação, na importância da arte na formação do ser humano e a possibilidade de transformação através dela. Pude comprovar na prática o poder da arte na formação integral do ser humano, de qualquer classe social e também das pessoas portadoras de deficiência, transtornos mentais ou marginalizadas por quaisquer motivos. A arte além de essencial na formação exerce função terapêutica e de inclusão, resgatando a dignidade do ser humano em todos os níveis. Neste depoimento exponho algumas experiências que confirmam esta tese.
Nasci de uma família de artistas em que o meu avô paterno era joalheiro e desenhava as peças, o materno músico autodidata, a minha avó uma excelente desenhista e poetisa e minha mãe sempre se dedicou a um trabalho manual criativo. Talvez tenha sido daí a minha grande paixão pela arte.
Atravessei a infância estudando piano e ballet clássico incentivada pelos meus pais. Minha mãe guarda até hoje algumas das poesias que escrevia e ilustrava quando era muito pequena.
A minha formação artística iniciou-se no segundo grau, quando cursei um colégio técnico de Desenho de Comunicação, onde estudava em período integral as matérias regulares e as específicas. Foi nesse colégio que aprendi e imergi no mundo das artes, tanto que da história da arte à aprendizagem de técnicas e materiais, quase nada me foi novidade após esse período. Comecei a pintar e freqüentar atelier de artistas, e da pintura e das artes nunca mais me separei.
Ingressei então na Faculdade de Belas Artes de São Paulo no curso de Artes Plásticas. Logo no primeiro ano comecei a ministrar aulas num colégio da rede particular, de desenho, e me interessei pelo magistério. Durante 5 anos fui professora da rede estadual e municipal de ensino em bairros de periferia da Zona leste de são Paulo.
A experiência que tive nessa época foi muito enriquecedora não só no ensino, mas na minha formação como ser humano. Lembro que os alunos eram tão pobres, que não tinham calçado para ir à escola, então eu comprava para eles tênis e chinelo. Iam para o colégio com fome e aguardavam ansiosos a hora do lanche para se beneficiarem da merenda. Eu ficava indignada com a postura de resignação daquelas crianças. Assim, aproveitava as aulas de artes para, além dos trabalhos que lhes davam prazer e os faziam sentirem capazes de fazer algo na vida, alertá-los da importância de se valorizarem e de não se acomodarem com o que não era bom.
Na execução dos trabalhos, partia de temas familiares para eles e, como não havia recursos para materiais, planejava com antecedência as propostas e os materiais eram coletados por eles e por mim. Coletavam caco de vidro colorido para fazer vitral, garrafas que enfeitavam com velas coloridas, retalhos de tecido que se transformavam em painéis num trabalho coletivo, para que percebessem a importância do coletivo, etc. O que eu sabia é que não poderia nunca perder o objetivo das artes de desenvolver a criatividade, fazer da aula uma oportunidade de expressão dos sentimentos, sem jamais esquecer o social, o carinho e o afeto que aquelas crianças tanto necessitavam. Durante esse período iniciei um trabalho onde apresentava a eles várias obras de arte. Estudavam não só elementos da pintura, mas os estilos e a vida dos artistas com o objetivo de enriquecer o vocabulário visual e ampliar as ferramentas para que pudessem desenvolver a criatividade. Desse modo viabilizava um trabalho artístico e que também possibilitasse o acesso à cultura.
Durante uma época lecionei no período noturno em escolas, onde havia classes “especiais”, onde eram agrupados numa turma alunos repetentes, com sérios problemas de comportamento e com dificuldade de aprendizagem. Para mim era um desafio, o que me deu um grande aprendizado não só para o magistério, mas como experiência de vida. O que fui percebendo com o tempo é que aqueles seres humanos só precisavam de alguém que se importasse e acreditasse neles, e muito do que faziam era para chamar a atenção, clamando por um pouco de amor. Abri a eles uma oportunidade de falar inicialmente através da arte e a partir daí foi desbloqueado um canal de comunicação a que tive o privilégio de mediar. A relação de respeito e o vínculo que fizemos foi uma das melhores lembranças que levo comigo.
Eu nunca deixei de acreditar na importância da arte na formação do ser humano, porque somos seres criativos e temos a possibilidade de transformação através dela. As energias estagnadas de agressividade que podem levar à violência, frente a um trabalho criativo, são canalizadas e redimensionadas.
Na época da faculdade formei com alguns amigos da Faculdade Belas Artes um grupo de teatro infantil, e nos finais de semana íamos aos orfanatos apresentar para as crianças e levando também mantimentos e roupas que recolhíamos durante a semana. Foi uma experiência riquíssima e gratificante, que infelizmente durou menos do que deveria por compromissos e outras questões inerentes a um grupo de jovens.
Após ter concluído o curso de Artes Plásticas, ingressei em pedagogia na PUC, e após o término, complementei a minha formação com o curso de psicologia que deixei a concluir, mas tudo com o intuito de enriquecer a minha atuação no magistério. Acredito que formar pessoas é uma tarefa das mais sérias que existem e de quem escolhe essa profissão, há de se exigir além da vocação, amor e muito estudo.
Após esses anos, fui lecionar num colégio de classe alta de São Paulo, e contrário às minhas expectativas, os alunos eram tão carentes quanto os da periferia.Os pais da periferia estavam ausentes não só pela necessidade de trabalho, mas pela falta de consciência da importância de sua proximidade com os filhos. Quanto aos da classe alta, estavam sempre viajando, em eventos sociais, e apesar de saber da necessidade da sua presença para o equilíbrio psicológico de seus filhos, tentavam suprir a ausência com bens materiais. Pode parecer estranho, mas a carência emocional dessas crianças era igual às da periferia.
Durante esse tempo chefiei o departamento de artes desse colégio, onde pude viver mais magias que a arte me fazia vivenciar. Passei então a trabalhar e pesquisar dentro da arte educação, o trabalho com leitura de obras de arte não só em sala de aula através de livros, como eu já havia feito anteriormente, mas também em museus de arte, onde fazíamos visitas periódicas à exposições com alunos a partir dos 4 anos de idade. Ë de grande importância o estímulo da criatividade através de imagens, pois assim a criança não vai fixar-se em imagens estereotipadas, que são as casinhas e árvores que a maioria dos adultos repetem por toda a vida, isso sem dizer o quanto o desenvolvimento da criatividade, e de uma auto expressão, é importante no mundo de hoje em todos os setores, não só das artes. Nesse período fiz especialização em História da arte como mais um instrumento de trabalho e pesquisa.
Após alguns anos nesse colégio, decidi desligar-me para me dedicar à uma especialização em arte Educação na ECA - USP com alguns dos melhores profissionais dessa área do país. Terminado resolvi então abrir minha própria escola, o que foi decisivo para minha atual ocupação.
Recebia alunos de várias escolas particulares, e com o tempo comecei a perceber que através de um atendimento mais individualizado, podia perceber o meu aluno inteiramente, no emocional inclusive. Procurava então lançar propostas e trabalhar determinados artistas, que os levavam a pensar em seus sentimentos e a se perceberem não só com suas capacidades, mas também trabalhando conscientemente suas dificuldades para tentar superá-las. Tive muito retorno positivo com o passar do tempo, aonde crianças hiperativas, com déficit de atenção, tímidas, etc., iam como que magicamente se modificando.

Tive a comprovação de mais um poder da arte, a terapêutica.

Em alguns finais de semana eu e minha sócia, fazíamos workshops para crianças carentes e meninos de rua. Lembro-me de um que fizemos em parceria com uma ONG que trabalha com meninos de rua, quando tivemos o privilégio de assistir e participar da alegria, dos comentários inteligentes e oportunos de meninos que infelizmente não tinham acesso às galerias e museus. Nem por isso deixavam de ter um olhar apurado e sensível às obras expostas. O resultado dos trabalhos que as crianças executaram, vendo e lendo obras de arte numa galeria improvisada foi surpreendente, comprovando que a arte é feita para todos terem acesso e se beneficiarem com ela.
Infelizmente, acabei tendo que fechar a minha escola, mas com certeza muito pude fazer por muitos.
Passei então por muitos anos, a dar aulas de arte contemporânea para grupos. Nessas aulas os alunos estudavam a vida e obra de um artista por semana, pois para compreender a criação precisamos ter olhar para o criador. Esse estudo conjunto (a relação de educação é também de troca) me fez sentir necessidade de estudar filosofia, foi então que durante dois anos estudei um pouco essa rica área de conhecimento.
Após mais essa experiência juntando-a a convicção de que a arte é entre tantas outras coisas curativa, decidi após algumas pesquisas me especializar em arte terapia. Ingressei então na Especialização do Instituto Sedes Sapientiae O curso foi além das minhas expectativas, pois pude unir todo o conhecimento acadêmico e experiência profissional que cultivei até então em prol da saúde.
Após dois anos de curso, é obrigatório cumprir algumas horas de estágio supervisionado em alguma instituição onde se preste serviço à comunidade. Decidi então optar pela AACD, porque havia participado de um seminário nessa instituição, onde se abordou entre outras coisas o poder da arte terapia para reabilitar deficientes, e fiquei encantada e curiosa para aprender sobre esse campo de atuação, que tinha também o lado social que eu tanto gostava. Uma das minhas professoras do Sedes era a responsável pela arte reabilitação da AACD, e eu sempre tive muita admiração pela pessoa e pelo seu trabalho, o que contribuiu também para a minha escolha.
Precisei estudar muito porque havia um exame de seleção com um conteúdo específico de neurologia que até então estava fora da minha área de conhecimento.
No dia do exame fiquei um pouco insegura, pois sendo muito sensível, fiquei receosa de não ser forte o suficiente para lidar com determinadas questões que enfrentaria na instituição. Foi então que resolvi chegar mais cedo no dia do exame, sentar na recepção, e ficar observando e sentindo um pouco daquelas pessoas que ali estavam como uma maneira de me colocar em cheque. Obtive então toda a certeza de que poderia ser muito útil para aquelas crianças e o amor era mais do que o suficiente para transpor qualquer dificuldade que pudesse vir a ter. Felizmente fui aprovada e ingressei num estágio de um ano, onde deveria escolher um tema de pesquisa dentro da instituição, estudar com os residentes, participar de reuniões científicas, comprovar a minha tese dentro da população da instituição, e aprender o suficiente para que pudesse não só escrever, mas publicar uma pesquisa científica.
Optei por fazer a minha pesquisa com os pacientes internados no hospital com Mielomeningocele, por ser uma doença desconhecida para muitos, e porque me afeiçoei muito por um paciente, a quem devo os meus agradecimentos eternos pela troca e pela oportunidade de sentir o quanto essas crianças são especiais.
A mielomeningocele é um defeito de fechamento do tubo neural (DFTN), ou seja, uma malformação complexa do tubo neural, em que ocorre uma falha na fusão dos elementos posteriores da coluna vertebral, produzindo falta de fechamento do canal vertebral e displasia da medula espinhal. O defeito congênito acontece entre a terceira e a quinta semanas de vida intra-uterina e nem sempre é diagnosticado durante a gravidez.
Ao nascimento, a criança apresenta várias deficiências, com comprometimento de vários órgãos e sistemas. A displasia medular promove uma paralisia sensitivo-motora, que atinge os membros inferiores, a bexiga e o intestino. Malformações associadas, como a hidrocefalia, podem comprometer ainda mais as funções da criança.
O DFTN é um termo genérico a várias doenças que apresentam algumas características anatômicas distintas.
A mielomeningocele é a forma mais freqüente desse grupo de doenças, correspondendo a 85% dos casos. Na região da lesão, visualiza-se, externamente, uma bolsa de tamanho variável que é revestida por uma fina camada de pele e em cujo interior, estão as meninges, a medula espinhal e as raízes nervosas, todas displásicas e envoltas por líquor. O defeito ósseo é evidenciado pela falta de processos espinhosos, lâminas e alargamento do diâmetro do canal vertebral. A pele pode ser acompanhada por hemangiomas, áreas de fibrose e tufos pilosos. A bolsa ocorre com maior freqüência na transição toracolombar e é rara na região cervical.
A pesquisa foi para comprovar como através do desenho a criança comunica seus sentimentos mais profundos que através da palavra nos escapa.
A possibilidade que as crianças têm de comunicar seus sentimentos e sensações por intermédio da linguagem verbal é menor do que pela linguagem da arte, já que esses sentimentos são muitas vezes indefinidos e, portanto, difíceis de serem transformados em palavras. A expressão por meio da arte acessa mais rapidamente tais sentimentos, conseguindo externa-los pelas imagens, cores e formas, o que possibilita o acesso ao inconsciente. Tornando conscientes tais sentimentos temos a possibilidade de trabalhá-los com a criança. Felizmente pude comprovar nessa pesquisa científica o poder da comunicação através da arte.
O que vivi nesses meses, a convivência com essas crianças e pais especiais, ver brotar um sorriso no rosto de uma criança com dor, e sentir que por um tempo essa criança ficou equilibrada em contato só com seu mundo imaginário. Foi para mim além de mais uma comprovação do potencial da arte, uma rica experiência de vida.
Ao terminar o estágio na AACD, a única maneira que tive de continuar meu trabalho foi como voluntária, e até a presente data trabalho na clínica de arte reabilitação onde atendo pacientes com várias patologias, e no hospital trabalho com as crianças que estão internadas no pré e pós-cirúrgico.
A cirurgia é um fator de estresse, pois é uma das poucas ocasiões em que o indivíduo tem sua segurança e bem-estar abalados, visto que está entregue ao desconhecido. O trabalho de arte terapia para as crianças internadas é muito importante porque podemos ajudá-las a atravessar o trauma desse momento de dor e tensão que a hospitalização causa, e que geralmente elas tem dificuldade de verbalizar.
Destas experiências dentre tantas outras me convenci de que a arte é essencial para a formação e o resgate da dignidade humana. Portanto, deve ser adotada nas escolas, hospitais, presídios, abrigos, entidades assistenciais públicas e privadas como fator auxiliar na formação, recuperação, inserção social de todos os seres humanos, pois as circunstâncias pessoais de cada um não lhes subtrai a dignidade.

Publicado no livro "Universo Feminino"

NOTA SOBRE A AUTORA
Gersony Silva,nasceu em São Paulo.

Sua formação inclui:
Licenciatura Plena em Artes Plásticas – Faculdade de Belas Artes de São Paulo
Pedagogia – PUC – SP
Especializou-se em Arte Educação pela ECA USP, em História da Arte, Escola do
MASP, em Arte Terapia pelo Sedes Sapientiae, e Arte Reabilitação pela AACD – São
Paulo.

Possui larga experiência em arte educação, em colégios e Museus de Arte, e em
inclusão social.
Experiência de 25 anos como professora de artes em diversos colégios, 10 anos como
orientadora de artes e professora de História da arte e
arte contemporânea.
Como arte reabilitadora trabalhou e pesquisou cientificamente a importância da arte na
reabilitação das crianças, na enfermaria pediátrica do hospital da Associação de Assistência à Criança Deficiente, AACD.

Atualmente exerce atividades como arteterapeuta de crianças e adolescentes, arte
reabilitadora de crianças especiais, e atua como artista plástica participando de
diversas exposições coletivas e individuais no Brasil e no exterior, trabalhando com
pintura, objetos, instalações, performance e pesquisa de novas mídias.


Gersony Silva