Textos Críticos

Passagens permitidas de Gersony Silva

Se na mitologia insinuam-se travessias no labirinto que o Rei Minos de Creta ordenou ao arquiteto Dédalo construir - cheio de passadiços, dispostos de uma forma tão complicada que era impossível encontrar a saída, assim como na passagem da construção pelo Dédalo com penas e cera de abelhas, das asas para fugir com seu filho Ícaro, quem, desobedecendo o pai, provocou sua própria morte -, nas travessias de Gersony Silva, as referências na exposição “Encenados para Ícaros”, navegam até os passadiços estéticos contemporâneos construídos em cada uma de suas modalidades artísticas. Com conjunto de obras na Galeria Virgílio, as travessias/estratégias não são como Dédalo, o Ícaro e nem o Miniaturo; são, junto ao espectador, com as modalidades elaboradas pela artista abordando o símbolo asas. São asas que nos induzem, como colocado pela artista, à trajetória dos grandes sonhadores, referência metafórica ao vôo de Dédalo para escapar voando do labirinto de Creta junto ao filho Ícaro.

Assim, o conjunto de obras na exposição transmutam as possibilidades metafóricas da instabilidade do fazer e ser, auferir, acolher, admitir e reaquistar. Estes verbos/ações fazem, ao mesmo tempo, com que as dimensões semânticas e pragmáticas do tema nas obras adquiram uma presença irrefutável. Considerando aqui também o que Ticio Escobar (2006) qualifica como “[...] o retorno a inserção de narrativas, a amalgama de narrativas, a irrupção de contextos sociais, a presença assediante de realidades ou de espectros de realidades”.

Com suas obras Silva dilui o embasamento plástico em argumentos nos puros valores da forma, em ilimitadas abordagens da sua própria linguagem, abrindo-a à intempérie da história, de seus rodamoinhos de ventos e fluxos, contaminando saudavelmente suas ações com imagens, discursos, textos, eventos e estadísticas provenientes de contextos multi e interdisciplinares.

Compreensão (como composição do conteúdo) e extensão (como quantidade e relevância das referências) são as definições que metabolizam o jogo que a artista conduz nas obras fora do círculo da mera representação. Como em Caixa para danças I( 2014), onde há o entrelaçamento de objetos e mídias – um galho dourado de metal serve como a raiz que sustenta a caixa de madeira que como porta-joias guarda a leveza de um registro videográfico produzido pela artista da bailarina da caixa de música se enrolando na sutileza de uma linha azul, que como a imprudência de Ícaro a levará à morte do desejo. Paradoxalmente a “real” bailarina encontra-se estática frente ao espelho fixado na tampa da caixa que das laterais desta saem as asas douradas. Assim, mito, símbolo, ação sugerida e contida possibilitam a implantação de aditivos sensoriais que dialogam e se contradizem alternadamente em intensas grades nas quais despontam, como coloca Daniel Lins: “[...] bifurcações, os abrandamentos, as acelerações, as estradas percorridas, em suma, uma cartografia que situa os acontecimentos em relação, estabelecendo conexões.”

Em Passagem permitida (2012), a projeção de uma ação performática da artista na Avenida Paulista sugere a passagem à liberdade através de uma fenda, e essa passagem são as asas. O rumo onde elas serão direcionadas depende da ação individual. A artista interpela o cotidiano e sugere, com as asas, formas culturais de libertação no meio do caos urbano: significados compartilhados em livres deslocamentos expressivos.

A conjugação da multiplicidade de modalidades e suportes – desenhos, projeções, instalações, fotografias, papel, tecidos, ... - ; a variabilidade nas dimensões das obras; a abordagem dos temas consolidam, no resultado da exposição, o que Jacques Rancière (2009) nomeia como “[...] a passagem do domínio das artes do reino da poética para o da estética”; designada esta ultima pelo mesmo autor como “[...] um modo de pensamento que se desenvolve sobre as coisas da arte e que procura dizer em que elas consistem em quanto coisas do pensamento”
A vulnerabilidade cromático/estrutural/sensorial na série “SOBREvôos ” IX a XXIV (2016/17) e na série Fendas (2016) regulamenta as estratégias do uso da representação e da descrição/exposição das asas como formas híbridas, estratégias tidas como postulados de uma convenção cultural e não na simples associação entre o objeto e as imagens.
ANDRÉS I. M. HERNÁNDEZ
Curador - São Paulo verão de 2017