Textos Críticos

Há - Colhidos Brancos Para Maria

O sensível e o feminino integram a poíesis de Gersony Silva. No seu percurso estético, pés se tornam asas; pernas revelam fendas; o suor traz redenção e, a disciplina do movimento se transmuta em liberdade. São desenhos, pinturas, objetos, fotografias, performances e instalações que transcendem as limitações corpóreas e se elevam ao sublime. Quase todos os seus trabalhos são dominados pelo dueto vermelho-azul intenso. Em muitos deles, as cores esboçam os atributos do corpo e da alma.

O diálogo entre corpo e alma está Há-Colhidos Brancos (Para Maria)? À primeira vista, a predominância do azul celeste e do branco autoriza somente a presença do atemporal. Com o lapso do vermelho e o acréscimo do branco, onde está o corpo? Onde está o movimento que, invariavelmente, leva à liberdade? E, enfim, onde estão os princípios poéticos caros à artista? Todas são questões inquietantes. A busca por suas respostas nos permite uma rica leitura da obra.
Na instalação, 40 fotografias de céus de diversos lugares do mundo remetem ao sentimento do divino. Em algumas fotos, raios de sol surgem como fendas entre as nuvens, referenciando a aparição de Maria – “uma senhora mais brilhante do que o sol”, como descreviam os três pastores em 1917. Nas fotos, a movimentação das nuvens e as centelhas de luz ora agitam, ora tranquilizam o olhar. A disposição das fotos guardam ausências – espaços em branco que auxiliam na suspensão do tempo que a obra exige.

Além dos céus, existem seis oferendas (três nuvens e três rosas brancas) que têm como suporte asas douradas. As rosas brancas, tradicionalmente, ofertadas às divindades traduzem a pureza e a ideia de que “sou digno de Ti”, ao passo, que as nuvens brancas evocam o etéreo; o devir e, a metamorfose. Lembremos aqui que toda oferenda traz um pouco da essência de quem oferta. A permanência das asas assume a função de assinatura afetuosa da artista. Um tecido, no qual estão, na parte inferior, a impressão da rosa e na superior, as nuvens e o céu, vela e revela a instalação. Ele também delimita e protege, de forma delicada, o espaço.

A partir das fotografias, oferendas e tecido (os colhidos), a artista cria um ambiente de abrigo, onde o sagrado e o feminino recebem o corpo daquele que completa a instalação (o espectador) – e, finalmente, o temporal se faz presente. No jogo entre colhidos e acolhido, o lugar torna-se templo, altar e ninho que envolve o corpo daquele que adentra.

Em síntese, Há-Colhidos Brancos (Para Maria) é mais do que um convite à contemplação; ela é um espaço de reflexão, de religare e de reconexão. Corpo e alma unidos pela sacralidade do lugar. Uma vez dentro da instalação, o público intui o ruah (o sopro, o ar e o vento) e a onipresença de Maria. Ele sente-se acolhido e, simultaneamente, reafirma a experiência sensorial do sublime.
ALECSANDRA MATIAS
Doutora em Artes Visuais – ECA USP/ Pós-doutorado no Instituto de Artes/UNESP Membro da ABCA (Associação Brasileira dos Críticos de Arte)